sábado, 20 de dezembro de 2014

Quando nasce um bebê



Dizem: quando nasce um bebê, nasce uma mãe também. E um polvo. Um restaurante delivery. Uma máquina de chocolate prontinho. Uma mecânica de carrinhos de controle remoto. Uma médica de bonecas. Uma professora-terapeuta-cozinheira de carreira medíocre. Nasce uma fábrica de cafuné, um chafariz de soro fisiológico, um robô que desperta ao som de choro. E principalmente: nasce a fada do beijo.
Quando nasce um bebê, nasce também o medo da morte - mães não se conformam em deixar o mundo sem encaminhar devidamente um filho.
Não pense você que ao se tornar mãe uma mulher abandona todas as mulheres que já foi um dia. Bobagem. Ganha mais mulheres em si mesma. Com seus desejos aumentam sua audácia, sua garra, seus poderes. Se já era impossível, cuidado: ela vira muitas. Também não me venha imaginar mães como seres delicados e frágeis. Mães são fogo, ninguém segura. Se antes eram incapazes de matar um mosquito, adquirem uma fúria inédita. Montam guarda ao lado de suas crias, capazes de matar tudo o que zumbir perto delas: pernilongos, lagartas, leões, gente.
Mães não têm tempo para o ensaio: estreiam a peça no susto. Aprendem a pilotar o avião em pleno voo. E dão o exemplo, mesmo que nunca tenham sido exemplo. Cobrem seus filhos com o cobertor que lhes falta. E, não raro, depois de fazerem o impossível, acreditam que poderiam ter feito melhor. Nunca estarão prontas para a tarefa gigantesca que é criar um filho - alguém está?
Mente quem diz que mãe sente menos dor - pelo contrário! Ela apenas aprende a deixar sua dor para outra hora. Atira o seu choro no chão para ir acalentar o do filho. Nas horas vagas, dorme. Abastece a casa. Trabalha. Encontra os amigos. Lê - ou adormece com um livro no rosto. E, quando tem tempo pra chorar - cadê? -, passou. A mãe então aproveita que a casa está calma e vai recolher os brinquedos da sala. Como esse menino cresceu, ela pensa, a caminho do quarto do filho. Termina o dia exausta, sentada no chão da sala, acompanhada de um sorriso besta. Já os filhos, ah Filhos fazem a mãe voltar os olhos para coisas que não importavam antes. O índice de umidade do ar. Os ingredientes do suco de caixinha. O nível de sódio do macarrão sem glúten. Onde fica a Guiné-Bissau. Os rumos da agricultura orgânica. As alternativas contra o aquecimento global. Política. E até sua própria saúde. Mães são mulheres ressuscitadas. Filhos as rejuvenescem, tornando a vida delas mais perigosa - e mais urgente.
Quando nasce um bebê, nasce uma empreiteira. Capaz de cavar a estrada quando não há caminho, só para poder indicar: É por ali, filho, naquela direção.

Cris Guerra

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A Mãe Humana no Abraço Eterno de Deus

Como vocês podem perceber, há mais de seis meses não publico uma só letra no blog.
Nesse tempo muita coisa aconteceu, mas o que me levou realmente a perder as palavras foi a perda da minha mãe.
Mamãe se foi no dia 29 de maio deste ano, de uma maneira muito rápida (apesar dos longos anos de limitação por conta da DPOC). Não esperávamos! Fomos pegos de surpresa! Passei a noite no hospital com ela e cheguei a ter a ilusão de que logo voltaria pra casa. Em pouco mais de 30 horas a contar da sua internação ela foi se 'apagando' até que o cansaço acumulado de tanto tempo de luta a venceu.
Nunca senti uma dor assim! Perdi o chão, perdi o ar, perdi Deus de vista... Senti verdadeiramente o "abraço esmagante" de Deus, Sua "ausência torturante", uma "dor incomparável, consolo inestimável"... E, por um instante, cheguei a pensar a não voltar a abrir os olhos. Nesse dia completavam-se 11 meses que a vovó tinha falecido (você pode ler sobre esse dia aqui) e uma ferida ainda maior se abriu no meu peito.
Mamãe foi enterrada no dia em que ela e papai completariam 33 anos de casamento e, no dia seguinte, 31 de maio, eu completei 32 anos de vida.
Não conhecemos os planos de Deus, mas alguns meses antes de mamãe falecer, consegui fechar a compra da casa que minha avó morou durante muitos e muitos anos, desde a infância da minha mãe e dos meus tios. Essa casa fica a poucos metros da casa da mamãe. Enfim eu poderia fazer-lhe companhia, estar mais presente, deixar as crianças curtirem mais a vovó. E marcamos a mudança justamente para o dia 31 de maio; seria o meu presente de aniversário.
Quando recebi a notícia de sua morte, no hospital, eu só conseguia pensar: "Agora não! Agora eu vou cuidar mais dela! Logo agora que consegui vir pra mais perto?! Por que??? Por que???" E, mesmo com o coração em frangalhos, mesmo sem esperança, mesmo com toda dor - que chegava a ser física - fizemos a mudança.
O tempo foi passando... O Senhor foi me consolando através do amor do meu pai, do meu irmão, do meu marido, dos meus filhos, da minha família, dos meus amigos...
Pude viver, mais intensamente esse consolo de Deus no último fim de semana em um retiro espiritual. Deixei casa, marido e filhos pra trás por três dias e fui para o Congresso das Novas Comunidades da minha Diocese. Justamente nesse fim de semana em que mamãe estava completando 6 meses em que foi ao encontro do Pai.
A mamãe já não podia frequentar a Santa Missa há algum tempo por conta do transtorno em carregar cilindros de oxigênio que nem sempre duravam a Celebração inteira, mas recebia semanalmente a Eucaristia em casa. Engraçado como que, mesmo assim, sempre é na Celebração Eucarística que mais sinto falta da sua presença; penso que essa seja a Comunhão dos Santos. Pois bem, durante a minha ação de graças, na missa de abertura, enquanto sentia sua falta e a saudade invadia meu coração, pude ouvir claramente o Senhor me dizer: "Alegra-te, ela está comigo!" O meu coração se acalmou e os meus olhos não conseguiam segurar tantas lágrimas. O purgatório passou. Quem sou eu pra conhecer os mistérios de Deus? Mas, naquele instante, eu tive a certeza de que ela estava lá, à minha espera e, enquanto esse dia não chega, continua intercedendo e zelando por mim, sua filha, e por nossa família.

Creio no Espírito Santo,

na Santa Igreja Católica,

na comunhão dos Santos,

na remissão dos pecados,

na ressurreição da carne,

na vida eterna.

Amém.

Missa de abertura do IV CDNC

sexta-feira, 23 de maio de 2014

As bênçãos de uma família numerosa

Eu nasci numa família de nove irmãos. Perto da minha casa, morava um tio, que tinha quinze filhos. Um pouco mais longe, morava o senhor Guatura com seus 24 filhos e mais um adotivo. Era assim há uns cinquenta anos. E que festa era! Faltava bola para jogarmos futebol no quintal; então, fazíamos bolas de pano.
No aniversário de cada filho, bastava convidar os primos para a casa já ficar cheia. Minha mãe fazia um delicioso “pão de ló” coberto com suspiro. Era o manjar dos deuses! Cada um tinha o direito – só naquele dia – de tomar um guaraná “caçula”. Para acabar devagar, pedíamos ao papai para fazer um furinho na tampa. Que tempo bom!

Não tínhamos quase nada, só um rádio. Não havia TV, internet, fogão a gás, geladeira, batedeira, freezer, nem micro-ondas, mas não nos faltava nada, havia muitos irmãos e muito amor.

É por isso que o Catecismo da Igreja diz que “a Sagrada Escritura e a prática tradicional da Igreja veem, nas famílias numerosas, um sinal da bênção divina e da generosidade dos pais” (n.2373). E ainda: “O filho não é algo devido, mas um dom. O dom mais excelente do matrimônio e uma pessoa humana” (§ 2378).

Ora, se Deus diz, pela boca da Sua Igreja, que “os filhos são o dom mais excelente do matrimônio”, então, dentro dessa lógica, quanto mais filhos melhor. Ninguém rejeita um dom de Deus, certo? Nunca vi alguém rejeitar um presente. É por isso que, no altar, o padre pergunta aos noivos: “Prometem receber os filhos que Deus lhes enviar, educando-os na fé de Cristo e da Igreja”?

Bem, sabemos que o mundo mudou muito nesses cinquenta anos.
A vida ficou mais cara e os pais têm mais dificuldades para criar e educar os filhos. Mas não há justificativa para irmos ao outro extremo, pois há muitos casais que já não querem ter filhos ou adiam o nascimento destes por muitos motivos.

Todos os países da Europa já estão com a população diminuindo, e muitos deles fazendo fortes campanhas para aumentar a natalidade. O Japão, por exemplo, está investindo três bilhões de ienes para fomentar o nascimento de mais crianças.

O Brasil tem somente 20 pessoas por km2, enquanto o Japão tem 330; dezesseis vezes mais. E eles querem aumentar a população, pois esta está envelhecendo. E o Brasil quer diminuí-la.

A Igreja ensina que cada casal deve viver segundo a “paternidade responsável”, isto é, deve ter todos os filhos que puder criar adequadamente. O critério de natalidade não deve ser o egoísmo, o medo ou o comodismo, mas o amor a Deus e ao filho, “o dom mais excelente do matrimônio”. Num casal cristão não pode faltar “a fé que move montanhas”. A Bíblia diz que “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6) e que o “justo vive pela fé” (Rom 1,17, Hab 2,4). Hoje faltam filhos porque falta fé.

Quanto maior uma família tanto mais alegria há nela. Como é gostoso, nos fins de semana, os cinco filhos, o genro e as quatro noras, mais os onze netos! É uma festa que não tem preço! É claro que tudo isso custou caro, muito trabalho, suor e lágrimas. Mas é uma festa contínua. Só quem dela participa sabe o seu significado.

Nós damos valor a uma família grande sobretudo na hora da dor e do sofrimento, quando todos se juntam para ajudar aquele que sofre. Como foi bom ver meus filhos e noras acompanhando, todos os dias, em revezamento, a minha esposa no hospital, em São Paulo, em um mês de internação, antes de Deus a chamar! Como é bom compartilhar as alegrias e as lágrimas com aqueles que têm o nosso sangue!

Portanto, mesmo com as dificuldades da vida moderna, o casal deve, na fé, não negar a Deus os filhos que puder ter. Afinal, o Catecismo diz que “os pais devem considerar seus filhos como filhos de Deus e respeitá-los como pessoas humanas” (§2222).

A maior glória que podemos dar ao Senhor é gerar um filho, pois nada neste mundo é tão grande e belo quanto ele. A nossa liturgia reza que “tudo o que criastes proclama o Vosso louvor”. Pode a criação dar mais glória a Deus do que quando surge uma vida humana? Um cientista disse que “o Cosmos chorou quando viu o homem surgir”.

Infelizmente, caiu sobre o mundo todo um pavor estranho, um medo enorme de ter filhos; mas o casal cristão não deve se deixar levar pelo pânico de muitos ecologistas exagerados e de outros catastrofistas de plantão.


 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Nunca é tarde para deixar de gritar

Li esse texto e logo pensei: "Nossa! Não sou a única!" até a metade. Do meio pra frente só me veio no coração o pensamento: "Meu Deus, dá-me essa sabedoria!"
Compartilho-o com vocês, porque nunca é tarde para deixar de gritar.


Guardo com carinho os bilhetes que recebo de minhas filhas, quer sejam rabiscados com canetinha colorida sobre post-it ou escritos com letra perfeita sobre papel pautado. Mas o poema de Dia das Mães que ganhei na primavera passada de minha filha mais velha me causou impacto profundo.
Foi o primeiro verso que me deixou com a respiração presa na garganta, até que lágrimas quentes escorreram por meu rosto.
O importante da minha mãe é... que ela está sempre ao meu lado, mesmo quando me meto em problemas.
Sabe o que é... Nem sempre foi assim.
No meio de minha vida altamente cheia de distrações, iniciei uma nova prática que é completamente diferente de como eu me comportava até então. Virei gritadora. Não era frequente, mas era extremo --como um balão que está cheio demais, estoura de repente e dá um susto em todas as pessoas em volta.
O que havia nas minhas filhas, então com 3 e 6 anos, que me fazia perder a compostura? Era que ela insistia em sair correndo para buscar mais três colares de contas e seus óculos de sol cor-de-rosa favoritos quando já estávamos atrasadas? Que tentava colocar o cereal no prato, sozinha, e derramava a caixa inteira sobre o balcão da cozinha? Foi o fato de ela ter deixado cair no chão e se espatifar meu anjo especial de vidro, depois de eu ter dito para não tocar nele? Foi que ela resistia ao sono a qualquer custo na hora em que eu mais precisava de paz e tranquilidade? Era o fato de as duas brigarem por coisas ridículas, como qual seria a primeira a sair do carro ou quem ficaria com a colherada maior de sorvete?
Sim, eram essas coisas -- probleminhas normais e atitudes infantis típicas que me irritavam ao ponto de me fazer perder o controle.
Não é fácil escrever essa sentença. E não é fácil recordar aquela fase de minha vida, porque, a verdade seja dita, eu me odiava naqueles momentos. O que tinha acontecido comigo que me levava a gritar com as duas pessoinhas preciosas que eu amava mais que a própria vida?
Deixe eu lhe contar o que tinha acontecido comigo.
Minhas distrações.
Uso excessivo do telefone, excesso de compromissos assumidos, múltiplas páginas de listas de tarefas a cumprir, a busca da perfeição, tudo isso me consumia. E gritar com as pessoas que eu amava foi o resultado direto da perda de controle que eu estava sentindo em minha vida.
Inevitavelmente, eu tinha que desabar em algum lugar. Então desabei a portas fechadas, na companhia das pessoas que significavam mais para mim.
Até um dia fatídico.
Minha filha mais velha tinha subido num banquinho e estava tentando alcançar alguma coisa na copa quando acidentalmente derrubou um saco inteiro de arroz no chão. Enquanto uma chuva de um milhão de grãos de arroz se espalhava sobre o chão, os olhos de minha filha se encheram de lágrimas. E foi então que vi -- vi o medo nos olhos dela, enquanto se preparava para ouvir a reação irada de sua mãe.
Ela está com medo de mim, pensei, e foi o insight mais doloroso imaginável. Minha filha de 6 anos de idade está com medo de minha reação ao erro inocente dela.
Com pesar profundo, percebi que não era essa a mãe com quem eu queria que minhas filhas crescessem, e que não era assim que eu queria viver o resto de minha vida.
Algumas semanas depois daquele episódio, tive meu momento de revelação -- meu momento de conscientização dolorosa que me impeliu a empreender uma jornada para me livrar das distrações e agarrar o que importava de fato. Isso aconteceu três anos atrás -- três anos de redução gradual do excesso e das distrações eletrônicas em minha vida. Três anos me libertando do padrão de perfeição inalcançável e da pressão social para "dar conta de tudo". À medida que fui me liberando de minhas distrações internas e externas, a raiva e o estresse acumulados dentro de mim se dissiparam, pouco a pouco. Carregando um peso mais leve, fui capaz de reagir aos equívocos e travessuras de minhas filhas de maneira mais calma, compassiva e razoável.
Eu dizia coisas como: "É apenas uma calda de chocolate, nada mais. Você pode passar um pano, e o balcão ficará novinho em folha."
(Em vez de soltar um suspiro de exasperação, completando com uma revirada de olhos.)
Eu oferecia segurar a vassoura enquanto ela varria um mar de sucrilhos que cobria o chão.
(Em vez de ficar em pé diante dela com um olhar de desaprovação e aborrecimento total.)
Eu a ajudava a pensar onde poderia ter deixado seus óculos.
(Em vez de criticá-la por ser tão irresponsável.)
E nos momentos em que a pura e simples exaustão e os choramingos incessantes estavam prestes a me tirar a calma, eu entrava no banheiro, fechava a porta e me dava um momento para soltar o ar e me lembrar que elas eram crianças, e que crianças cometem erros. Exatamente como eu.
Com o tempo, o medo que antes aparecia nos olhos de minhas filhas quando se metiam em problemas desapareceu. E, graças a Deus, eu virei um refúgio para elas nos momentos de dificuldades, em vez de ser a inimiga de quem precisavam fugir e se esconder.
Não sei se eu teria tido a ideia de escrever sobre esta transformação profunda, não fosse pelo incidente que aconteceu quando eu estava terminando o manuscrito de meu livro. Naquele momento, senti o gostinho da vida me derrubando, e a vontade de berrar estava na ponta de minha língua. Eu estava chegando aos capítulos finais e meu computador travou. De repente, as correções feitas em três capítulos inteiros sumiram diante de meus olhos. Passei vários minutos tentando freneticamente reverter para a versão mais recente do manuscrito. Quando isso não funcionou, consultei o backup Time Machine, mas descobri que também ele tinha apresentado um erro. Quando percebi que eu não recuperaria jamais o trabalho que tinha feito sobre aqueles três capítulos, tive vontade de chorar -- mas, ainda mais que isso, de ficar furiosa.
Mas eu não podia, porque era hora de buscar as meninas na escola e levá-las no treino de natação. Com muito autocontrole, fechei meu laptop calmamente e me fiz lembrar que poderia haver problemas muito, muito piores que reescrever aqueles capítulos. Então disse a mim mesma que não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer naquele momento.
Quando minhas filhas entraram no carro, perceberam imediatamente que havia algo de errado. "O que foi, mamãe?" perguntaram em uníssono, depois de um olhar para meu rosto pálido.
Tive vontade de berrar: "Acabei de perder um quarto de meu livro!"
Tive vontade de socar a direção do carro, porque o último lugar onde eu queria estar naquele momento era no carro. Eu queria ir para casa e consertar meu livro, não levar crianças para a natação, torcer maiôs molhados, pentear cabelos emaranhados, fazer o jantar, lavar louça suja e colocar as crianças na cama.
Mas, em vez disso, falei com calma: "Está um pouco difícil para mim falar neste momento. Perdi parte de meu livro. E não quero falar, porque estou muito frustrada."
"A gente sente muito", disse a mais velha, falando pelas duas. E então, como se soubessem que eu precisava de espaço, fizeram silêncio até chegarmos à natação. As meninas e eu fizemos as coisas do nosso dia, e, embora eu tenha ficado mais silenciosa que de costume, não gritei e me esforcei ao máximo para não pensar no problema do livro.
Finalmente, o dia estava quase no fim. Ajeitei as cobertas em volta de minha filha menor e me deitei ao lado da minha filha maior para nossa "hora de bate-papo" de todas as noites.
"Você acha que vai conseguir os capítulos de volta?", minha filha perguntou.
Foi quando comecei a chorar. Não tanto pelos três capítulos, eu sabia que poderiam ser reescritos. Chorei mais pela exaustão e frustração de escrever e editar um livro. Eu tinha estado tão perto do final. Ter aquilo arrancado de mim de repente era incrivelmente decepcionante.
Para minha surpresa, minha filha esticou a mão e fez um carinho suave no meu cabelo. Disse coisas tranquilizadoras, como "computador pode ser tão frustrante!" e "eu poderia dar uma olhada no Time Machine e ver se dou um jeito no backup". E depois, finalmente, "Mamãe, você dá conta disso. Você é a melhor escritora que conheço" e "vou te ajudar de qualquer jeito que eu puder".
Em minha hora de dificuldade, ela estava ali, paciente, compassiva, me encorajando, alguém que não sonharia em me chutar quando eu já estava no chão.
Minha filha não teria aprendido essa reação de empatia se eu tivesse continuado a ser gritadora. Porque gritar fecha a comunicação, corta o laço. Leva as pessoas a se distanciarem, em vez de se aproximarem.
O importante é que ... Minha mãe está sempre ao meu lado, mesmo quando me meto em problemas.
Minha filha escreveu isso sobre mim, a mulher que passou por uma fase difícil, da qual ela não se orgulha, mas com a qual aprendeu. E, nas palavras de minha filha, enxergo esperança para outros.
O importante é... Que não é tarde para deixar de gritar.
O importante é ... Que as crianças perdoam -- especialmente se vêem a pessoa que amam se esforçando para mudar.
O importante é... Que a vida é curta demais para perdermos a calma por causa de cereal derrubado ou sapatos que você não sabe onde deixou.
O importante é... Não importa o que tenha acontecido ontem, hoje é um novo dia.
Hoje podemos optar por uma reação pacífica.
E, fazendo isso, podemos ensinar a nossos filhos que a paz constrói pontes --pontes que podem nos levar até o outro lado em momentos de dificuldade.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

"Vestido de Noiva" - por Emmir Nogueira



     Não! Este artigo não trata da famosa peça de Nelson Rodrigues com o mesmo nome. Pelo contrário. Falo de outro vestido, de outra noiva, de outra mentalidade. Falo de uma foto. Em primeiro plano, a noiva. Vestido simples, sem bordados. Grinalda simples e longa. Bouquet simples, poucas flores, todas brancas. Maquiagem imperceptível. Incrivelmente bonita, já que, não fosse por sua expressão de alegria interior, seria uma pessoa feia. Sorriso imenso, feliz, tem o braço direito estendido um pouco ao alto, como a mostrar o bouquet. Sob o vestido, quase sem querer, aparece o pé esquerdo, a denunciar um gesto meio de dança, meio de brincadeira, como quem está a fazer uma reverência. Isso mesmo. Foi uma foto espontânea, não posada. Em segundo plano, um garoto. Daqueles simples, talvez um convidado intruso. Meio de costas para a noiva, parece que só está ali para denunciar: é verão! Mangas curtas, calças curtas, pernas inteiramente desnudas. Não há dúvida, é verão. O menino cumpriu sua missão. Aparece ali não porque é pajem, irmão, padrinho ou convidado. Aparece somente para dizer: “Vejam, é verão!”
      Você há de se estar perguntando: e o que seria tão importante acerca do verão para justificar uma missão especial para o intrometido? É que a noiva, em primeiro plano, sim, a noiva da foto – pasme! – está de mangas (sim, seu vestido tem duas mangas!) compridas. Daquelas que vêm até o pulso. E veja que não são transparentes. O decote – pasme, novamente – é rente ao pescoço. Tudo é tão especialmente diferente do que hoje chamamos de noiva que cada detalhe chama atenção. O maior dos detalhes, porém, transcende a foto: a noiva da foto é uma santa. Santa Gianna, recém casada com o seu Pietro, a sonhar, alegremente, com os seus quatro tesouros que haveriam de vir.

     Ao contemplar esta foto, meus pensamentos vieram como uma onda após a outra. Primeiro: “Puxa, como ela primou pela exaltação da castidade, da virgindade!” Segundo: “Ela já era santa!” (como se santos se fizessem em um estalar de dedos). Terceiro: “Já pensou se o vestido dela fosse sem mangas, sem ombros, sem nada acima da linha dos seios, sem exaltar a castidade? Já pensou se as costas fossem nuas até a cintura, a maquiagem carregada, a grinalda como a coroa da rainha de Sabá? Já pensou se o vestido fosse um brilho só, se o bouquet lhe fosse até os pés? Como é que a gente ia ter coragem de mostrar o retrato da santa?” Quarto: “Bom, a gente ia dizer que ela tinha se convertido depois e que só depois tinha aderido à castidade”. Quinto: “Valha-me Deus, como foi meu vestido de noiva?”
     Pois é. A santa, vestida de noiva, exaltava a castidade em seu vestido de mangas compridas apesar do pleno verão italiano. Exaltava aí e exaltaria depois, durante toda a sua vida de casada, como se vê pelas cartas que troca com o seu Pietro. Esta santa não diria que no quarto do casal, entre quatro paredes, tudo é permitido. Esta, não pensaria em transformar seu leito conjugal em um leito de motel. Não pensaria em usar roupas íntimas pornô para excitar o seu Pietro. Não pensaria em preservativos ou comprimidos anticoncepcionais. Não pensaria em laqueadura de trompas aquela que não pensou em retirar seu feto para livrar seu útero.
     Posso estar errada. Mas hoje, quando vejo as noivas desnudas, maquiadas como atrizes de tv, a arrastar seus caríssimos e quilométricos bouquets, a se esbaldarem de beber em suas festas de casamento, não posso deixar de pensar o que consideram castidade conjugal, em que seriam capazes de transformar seus leitos, suas alcovas conjugais, como se dizia antigamente. Não posso deixar de me perguntar em que estariam dispostas a transformar suas famílias, seus corpos e os corpos dos seus maridos. Não estou certa de que conotação dariam a este possessivo “seu”: “seu” marido, “seu” leito, “seu” quarto, “seu” filho. Temo que, distorcidas as ideias, viriam a dizer que, sendo seu o corpo e seu o filho, sendo seu o leito e seu o marido, podem dispor deles como bem quiserem. E isso seria o avesso do vestido da noiva da foto e de tudo o que, canonizando-a, a Igreja nos quer dizer.

terça-feira, 29 de abril de 2014

domingo, 6 de abril de 2014

Se meu apartamento falasse…


          Ainda não nos mudamos, mas cada passo dentro dessas paredes apertadas, apertam também nosso coração, nesse nossos últimos dias aqui.
          Sei que o que Deus tem preparado para nós na casa nova é muito mais do que um dia pudemos imaginar. Mas não posso esconder o quanto meu coração chora em deixar pra trás esse presente maravilhoso que Deus nos deu às vésperas do nosso casamento.
          Entrem no link abaixo e leiam o texto que meu marido postou em seu blog.
          Obrigada, meu amor, pelas lindas palavras que expressão tão bem nosso sentimento nesses dias. Te amo, meu Camponês!!!

Se meu apartamento falasse…